quarta-feira, 18 de novembro de 2015

É a lama, é a lama




Uma Terra que virou um megamercado para muito poucos se abastecerem.
A maioria fica é com as migalhas, com os sobejos e os danos.
O rio não é doce, mais. Aliás, nem mesmo é rio!
Agora é apenas um vestígio do que um dia foi a morada dos peixes. É uma pegada de barro, a tumba dos inocentes de vidas simples e de esperanças aniquiladas.
Algumas catástrofes são anunciadas por anos. A devastação de florestas, a poluição do ar pelos automóveis, indústrias e pecuária, os plásticos embolados nos oceanos, as nascentes soterradas, as geleiras diminuindo em conta-gotas geológicos. Mas há mobilizações para que não se concretizem. Existem estudos, denúncias e esforços para a conscientização e a reversão dos danos. 
Mas as tragédias instantâneas gestadas nos gabinetes e salas de reunião, na surdina dos gráficos  financeiros, dos cortes de custos e da maximização dos lucros, essas são invisíveis, até que a lama chegue ao pescoço. São inaudíveis até que estrondo desperte o choro e os gritos. Continuam sendo acobertadas mesmo depois do flagrante.
O colapso da barragem de Bento Ribeiro detém nome, sobrenome, assinatura e marcas digitais dos autores. Alguns dos cúmplices têm retratos em repartições e atas de posse. Outros, têm imagens repetidas via satélite e  exemplares nas bancas. E os responsáveis são defendidos pela poderosa associação dos canalhas.
Nada os sensibiliza. Nem as tranças da menina, o relincho do potro atolado ou as tetas enlameadas das cadelinhas sem prole. Nem os retratos de batismo soterrados, o uniforme do terceirizado que já não cobre um ser vivente. Nem mesmo as torneiras secas a quilômetros de distância, os ovos das tartarugas sob risco de extinção. Tampouco as areias das praias que ilustram seus cartazes publicitários poderão ser fotografadas tão cedo. Mas, quem liga?
Toca montar uma ópera bufa com notas divulgando falsidades e pseudo multas a descontar do erário. Oportunidade imperdível para fingir de morta porque ainda não chegou a orientação dos diretores da matriz para as vazias (e anódinas) declarações de praxe.
Onde está o comprometimento com a verdade? E a integridade? Que se dirá duma tragédia dessa monta? O único motivo para proibir o acesso ao local foi esconder indícios ou provas, mesmo, da culpa, da displicência? O medo é a queda das ações.  Por isso a falta de ações, por isso o acobertamento de informações? Que foi feito para evitar o esparramo da lama por quilômetros de distância? Existiu essa possibilidade? Foi aventada? As empresas societárias possuem maquinários tremendamente poderosos. Eles cavam montanhas, poderiam repetir ações hercúleas? O curso do outrora rio poderia ter sido desviado para conter o avanço rumo ao mar?
Como mencionar quem deveria interferir para fazer cumprir a legislação, proteger a população e a integridade ambiental e social, mas aliou-se às gigantes que escalavram o solo e remetem a carne ferrífera além mar e deixam crateras, doenças, e morte e miséria? O que diremos das sentinelas da liberdade? Dos meios de comunicação que se calam e descomunicam uma catástrofe tão imensa? Por que? Os atingidos são tão pequenos?  Por que, mesmo que não poucos, mesmo que sem voz - pois o idioma dos ribeirinhos não consta no Google Tradutor,  as águas não vocalizam sua morte, os animais não soletram sua agonia e a vegetação não grita sua extinção - não jogam no time dos poderosos?

São perguntas demais. São assombros demais e indignação mais que suficiente para ficarem atoladas na garganta.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Alguém



Dedicado à Nilza Lara.






Alguém levanta cedinho e, por causa da estiagem, vai molhar a horta. Dali brota a mistura do almoço e da janta. Arranca as folhas murchas e raquíticas das verduras, que é pra dar força pra planta. Leva tudo e joga pras galinhas, galo e pintinhos. Aproveita pra coletar os ovos. O cachorro sempre junto, por ser um bom companheiro. Volta pra cozinha e coa o café, que a água já ferve. Chama os meninos pra aula, ainda é quinta-feira. A roupa que estava de molho tá pronta pra esfregar. O sabão faz uma espuminha pálida e o barulhinho, “sfring”, refresca um pouco, porque o calor tá demais. Põe pra quarar. Roupa bonita é branquinha. Hora de fazer o almoço: arroz, feijão, carne da lata, angu e uma mostarda assustada na banha. Saladinha de tomate com uma chuvinha de salsa e cebolinha. Restos de comida pro cachorro no prato de folha amassado. Cozinha arrumada: vasilhas areadas, no jirau, secando ao sol. Roupa enxaguada pendurada na cerca. Preparar a geleia de pimenta que reforça o orçamento. 
Alguém escuta o cachorro latindo desesperado. Em meio ao latido, um rumor denso, acompanhado de estalos e gritos. Corre à janela e um pesadelo lamacento e fedorento solta seu bafo e dá uma lambida imunda, pegajosa.
O cachorro silencia. As galinhas e pintinhos, desaparecem. A roupa branca manchada de castanho acena o adeus. Os meninos, oh, os meninos...
Alguém deixa o trabalho inacabado. O mundo de alguém se acabou. Foi acabado por uma onda interminável de ganância e compadrio entre irresponsabilidade, corrupção e insensatez.