sábado, 24 de novembro de 2012

Dos Critérios



Sentinela da liberdade, o nosso poder de escolher nos apazigua ou inquieta conforme seja amplo e variado ou tímido e restrito. Mas seja lá qual for sua amplitude, essa possibilidade traz embutida uma régua de medir nossas escolhas: É do critério que eu trato. É ele o assunto, aqui. O critério do sim ou o do não. O critério da ordem de chegada, da ordem crescente, ou decrescente. Da ordem alguma, mas organizada pela afeição ou pela insignificância. Critério das cores, dos tamanhos, das afinidades ou da aparência – pode ser do feio ou do belo, que o critério é que define, também. O critério que opta por todos ou por nenhum. Pelos pares, pelos ímpares ou pelos primos. Ou o critério que permite deixar de escolher, deixar para trás, deixar pra lá. Ou acolher, compartilhar, criteriosamente.
Saber definir nossos critérios talvez seja um dos próprios critérios da sorte, do sucesso, da sabedoria. Uma quantidade restrita de oportunidades de escolha pode ser enriquecida por um critério generoso. Às Vezes, um balaio muito cheio de opções pode ser simplificado por uma definição de critérios mais limitados. Por exemplo: Posso não ter muita opção de escolha de lugares para viajar. Mas posso estabelecer critérios tais que a viagem eleita permita alcançar experiências tantas, que pareça ter sido dada uma volta ao mundo, num fim de semana. Posso ter milhares de livros para ler, mas meus critérios podem definir que nada aquém de Saramago me baste.
Por meu lado, espero liberalizar os meus critérios de maneira que me permita aumentar ao infinito minhas possibilidades. Mesmo que tenha poucas chances de escolher, resultem em intensas e amplas as vivências. Como de um só lugar da montanha em que se abarca o horizonte imenso. Ou como um lugar no sono em que se sonha mil vidas.
Quero o critério do ‘eu gosto’, do ‘eu posso’ e do ‘permito’. Quero o achego, a aproximação e a inclusão. Principalmente, quero encontrar o equilíbrio entre a minha sede de viver e a minha capacidade de beber da fonte da vida.
Mas, mais que querer, eu preciso estabelecer, para justificar minha liberdade, o critério que seja mais justo.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Eu me lembro, eu me lembro...





Era pequena e acreditava no capeta.
Tentava converter o danado. Pedia para ele “largar mão” de ser malvado, pedir perdão a Deus e andar no bom caminho.
Acreditava, também, nos ‘Era uma vez...’ e nos ‘Felizes para sempre’. Chorava nos filmes da Sessão da Tarde e ficava horas na frente do espelho tentando descobrir onde estava escondida a minha beleza. Vai que eu achasse!
Eu tinha cer-te-za  que o bem triunfava no final. E que bastava acreditar ’com força’ que alcançaria o que desejasse. Se não tinha conseguido era porque ainda não tinha desejado forte o suficiente.
Havia uma velhinha muito...velhinha, que morava, sozinha,  perto de casa, numa casinha pobrinha. Juntei uma turminha de amigos e fomos limpar a casa dela. Eu tinha, mais ou menos, 6 anos de idade.
Lembro de uma vez que o meu cachorro atacou um gato. O bichano estava moribundo, sofrendo horrores e pedi pro Papai para levar o bichinho ao veterinário. O Papai falou: “- Tá louca? Vê se eu vou gastar dinheiro com isso!” Eu respondi: “- Pois eu vou vender minhas joias pra pagar a consulta!” (2 anéis chapeados!). Corri pra dentro de casa e, quando voltei com o tesouro, o gato estava morto. (Até hoje desconfio do Papai).
Eu brigava na rua com carroceiro que espancava o cavalo.
Eu chorava nos filmes da Sessão da Tarde.
Já contei? Ops!
Todo ano eu jurava que ia estudar muito e ser cuidadosa com meu material de escola. Durava pouco, mas eu era sincera.
Sentia muito remorso por sentir preguiça e rezava pra mudar. Com muito fervor.
Éramos crianças e, um dia, a Adriana, minha irmã, cortou o pé com um caco de vidro. Fui com ela no colo até em casa. Era longe. Eu brigava com ela, direto.  Foi um baita sacrifício!
Estava indo pra aula e vi um cachorro arranhando um portão, querendo entrar na casa. Eu abri o portão (que era de grade) para ele entrar. Ele entrou. E me mordeu!
E por aí vai... Se o Universo fosse justo eu já tinha acertado a Mega Sena acumulada.
Contem aí suas boas ações. Pode ser que a gente divida o prêmio.

domingo, 11 de novembro de 2012

Eram treze



Um lado meu tem treze pedaços. Ai de quem pensa que é meu azar. Cresci com eles, enchendo a minha boca de sorrisos e meu coração de orgulho. Alguns desses pedaços viraram “pedaços sombrios”, pois não estão mais ao alcance da minha voz, dos meus beijos e dos meus abraços. Mas a sombra é bela. Tem as cores do arco-íris.

 O pedaço Fábio é a razão desse blog semi-abandonado. O sombração (piada interna, um dia eu conto)
 O pedaço Walter me faz lembrar de jambo, de compromisso, de responsabilidade, de um baixinho querido misturando lágrimas e sorrisos. Sombramorosa.
 O pedaço Iris me chama de “nega”, me mostra mil revistas italianas, oferece a casa para as melhores festas do mundo. Sombrapego.
 O pedaço Carlito tem a voz alta, cultura exalando pelos poros, preguiça de beijos e um andar (quase) só seu. Sombraqueromais.
 O pedaço Rúbio vem com cartas de baralho, espirituoso e musical. Paciência e uma perna curtas. Sombracanção.
 O pedaço Walkyria, a bela, conta as melhores estórias, solta as melhores risadas e tem o cheiro do carinho. Sombraconchego.
 O pedaço Neuza é uma voz linda. É dinâmica e bondosa. Me abraça com tanta doçura e me conta segredinhos risonhos. É sombraluz.
 O pedaço Ismênia é surpreendente. Tem as mãos que sempre ajudam, a fantasia pronta e quer dançar. Não é sombra, brilha ainda em minha vida.
 O pedaço Tiziu é misto de timidez e simpatia. Doa a própria presença nos natais e me faz lembrar de um armário cheio de “Seleções”. Muito longe de ser sombra, é alvura a ironizar o nome.
 O pedaço Vera percorreu o mundo e trouxe um pouco de cada lugar. Arrastou hordas de pretendentes, mas tem um recado: “Sou minha”. Enquanto isso, doa-se aos irmãos, aos sobrinhos... Que sombra, que nada.
 O pedaço Maurício é o que conta casos e está sempre: do lado, perto, presente. Me faz lembrar da risada rouca e de um prato de arroz com ovo e tomate (meu sonho nos momentos famintos). Longe de ser sombra!
 O pedaço Maria Virginia é suave. É carinho. É alegria. É tão bom! É pura claridade e amor infinito!

 O pedaço Renato é sombra, agora. Muito recente sombra, é transparência dos seus vidros e firmeza dos seus valores. Rígido nas decisões, flexível no coração. Te agradeço tanto! Você me fez querer escrever de novo. Queria poder te entregar uns versos e agora não tem mais jeito. Mas vou treinar para o nosso reencontro. Com pandeiro, com gaita e tamborim. Vamos fazer um samba. Vamos rir juntos, tenho certeza. E cantar as canções que não terminam e viver o amor que não acaba. Prometo!

 (A foto que ilustra o post, foi uma cortesia da irmãzinha Adriana e eu agradeço!)