sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sob as Luzes da Ribalta






Antigamente, ah, antigamente!
Essa palavra é sensacional porque abarca uma infinidade de épocas. É sempre antes, não importa de que. Do meu antes ou do seu antes. Tenha eu 47 (ui!) ou você 15, sempre tem antigamente.
O antigamente que tento lembrar aqui, para que não se perca junto com os meus fatigados neurônios, compreende um tempo mais ingênuo, nem por isso menos esperto. Pois é da esperteza do meu avô Carlos que vou contar agora.
O Papai dizia que o seu pai foi um artista. Fazia arte com madeira (depois eu conto melhor) e era artista de teatro amador, também.
Uma das minhas maiores curiosidades é sobre uma poesia que o vovô Carlos declamava: Boneca de Tarraxo. O Papai falava que era enorme, e engraçadíssima. Quem tiver alguma informação, POR FAVOR, me avise.
Mas já enrolei demais. Vamos ao caso:

O Vovô representava um personagem que entrava em cena logo depois que “sua mulher” tinha acabado de ler um bilhete, que ela queimava, rapidamente, ao escutar o “marido” chegando.
E o Vovô dizia.
_ O que aconteceu? Estou sentindo um cheiro de papel queimado!
Pois numa apresentação, esqueceram de colocar fósforos em cena e quando a atriz viu que não tinha outro jeito, rasgou o bilhete em pedacinhos. E o Vovô, muito atento, improvisou:
_ O que aconteceu? Estou sentindo um cheiro de papel rasgado!

E.T.: O Vovô era um legítimo português!


Fotos: Acervo pessoal.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Disse o Nário






O Papai conviveu com muita gente. Ele foi um ser gregário. Gregaríssimo, caso exista essa palavra. Falando em palavra, ele vivia de palavras. Não como políticos. Não como pregadores. Não como professores.
Em primeiro lugar, no seu trabalho, que era moldar palavras em frágeis transparências. Maneira pseudo-poética de falar que ele trabalhava fazendo placas em neon. Pegava tubos de vidro e com fogo, paciência e perícia ia “escrevendo” as palavras para depois rechear com gás, que iluminava e dava cor. Arte quase extinta, que o digam o Fabinho e o tio Maurício.
Em segundo lugar, contar seus casos e suas piadas era uma outra face da sua vida. A mais prazerosa, acredito. E suas palavras eram simples. E ele não era nenhum Olavo Bilac, se é que me entendem. Ele lia muito, tinha uma cultura acima da média, mas nunca deixou de falar corativo, táuba e tóchico quando queria dizer curativo, tábua e tóxico.
Em terceiro lugar, ele criou um código, ou adaptou um código, sei lá. Só sei que quem escutava algumas de suas (e depois, nossas) frases achava que estava em outro país.

Um dia, um conhecido de bar, reclamou:
_ Nessas lojas de Belo Horizonte a gente só acha roupa tamanho pigneu!
Pronto. Desse dia em diante, tudo que fosse pequeno, baixinho, deixou de ser pigmeu. E a gente tinha que contar o porquê disso. Tinha que sair com aspas na bolsa para explicar a ironia.

Outra, dessa vez na Neon Lux ou Neon Tunes, não tenho certeza. O Papai falou
_ O desenho da placa é em formato de losango.
Um funcionário “esperto”:
_ Você quer dizer Losângulo, capital dos Estados Unidos.

Sem falar no Osório. Osório era um empregado na Neon Tunes que era aleijado - antes dos politicamente corretos deficiente físico ou pessoa com necessidades especiais. Pois então, tudo que era torto, deformado, defeituoso, virou osório. O substantivo virou adjetivo:
_ Essa roupa está toda osória.
_ Que desenho osório é esse!

E para finalizar, um amigo de infância foi explicar por que seu apelido era Tiú:
_ Meu nome é Washington, mas a minha mãe não conseguia pronunciar. Então, quando me chamava para ir para casa, ela gritava: - Ostiúúúúú!!!!!!!
Foi assim, que a “outra” capital dos Estados Unidos ficou sendo Tiú, também.


Foto: Acervo pessoal.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Nem Precisa de Queijo

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Algumas pessoas são naturalmente graciosas. Não precisam de produção nem precisam forçar a barra. É dom.
O Papai tinha um jeito especial de conversar que prendia a atenção da gente. Quando ele contava uma piada, mesmo que pela vigésima vez, a gente ria. Inclusive, tínhamos as nossas favoritas e eram comuns os pedidos:
_ Agora, conta aquela ...
E ele contava. E todo mundo ria pra caramba!
Às vezes ele contava situações delicadas pela quais passou, inclusive alguns dramas... e nós ríamos demais.
Um dia, ele estava tomando umas cervejas num boteco perto de casa, ele a-d-o-r-a-v-a um botequim. Resolveu levar 4 (precisava ser 4!) garrafas de refrigerante pra casa. Como todo mundo sabe, ele só tinha duas (enormes, mas duas) mãos. Quando chegou na esquina, uma das garrafas caiu no chão e quebrou. Acontece. No portão, outra garrafa escorregou e teve o mesmo fim que a primeira. Na porta de casa, a terceira resolveu, solidariamente, fazer companhia às outras duas. Pois ele abriu a porta, pegou a derradeira garrafa e espatifou com toda a sua força na parede. Chega? Não!!! Ele "cresceu" os ombros (alguém se lembra do Hulk?) e literalmente, rasgou a camisa que estava usando em tiras e ainda por cima começou a sapatear em cima delas. Uma cena de provocar pesadelo em criancinhas... Mas eu só conseguia rir! Fazer o que?
O estopim era curto, mas a graça era tanta!
Ele fez amigos dos diversos adversários de brigas.
Sabem quem teve que ficar um dia inteiro em casa sendo cuidado pelas irmãs, com bifes no olho para diminuir o roxo? O tio Maurício. Por que? Durante uma partida de futebol, ele xingou o Papai de filho da p*:
_ Não admito que xinguem a minha mãe!

Vídeo: (http://www.youtube.com/watch?v=ErMWX--UJZ4)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Bente Altas, licença pra 2




Bola de Gude, finca, bodoque e bilboquê.
Patinete, bafo, papagaio e pião.
Bente altas, boca do forno e dominó.
Para geração do Play Station, Wii e PSP essas brincadeiras cheiram a sarcófago e mofo.
Ele tentou ensinar tudo isso para nós, eu, o Fabinho e a Adriana. Algumas, eu até aprendi, mas outras, como o bilboquê, mesmo, nunca consegui. Ele dizia que as suas primas eram tão boas no bilboquê que tinham broches, pequenininhos e até nesses, arrasavam! Pra quem não sabe, na última foto aí em cima, aparecem dois bilboquês e o objetivo da brincadeira é encaixar o bastão no orifício que há na bola. Tem que ter muita precisão.
No entanto, as brincadeiras preferidas eram aquelas ao ar livre. Nem chuva segurava, aliás, era ótimo para jogar bola e brincar na enxurrada!
E o mundo lá fora era lá fora, mesmo. As turmas se encontravam, se enfrentavam e casa era pra dormir, comer.
Muita correria e andança e energia gasta. Uma vez a Mamãe reclamou com a vovó Meca:
_ Eu faço, pro Fábio, as comidas do jeitinho que a senhora me ensinou, mas ele fala que as da senhora sempre foram melhores!
_ É que o Fábio que come as suas comidas não é o mesmo menino que chegava em casa depois de um dia inteiro de brincadeiras na rua.
E o mais irônico é que depois, mais velho, ficou inimigo de atividade física. Era carro para tudo. Quando o médico falou para ele se exercitar fazendo caminhadas diárias ele respondeu:
_ Não posso, doutor, a gasolina tá muito cara!



Foto 1: Acervo pessoal.
Foto 2: (http://www.forumnow.com.br/vip/mensagens.asp?forum=94106&grupo=179734&topico=2961870&pag=12&v=1)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Rajá e a Parecença





Quando criança, o Papai e os irmãos tiveram um cachorro chamado Rajá. Ele contava que o Rajá era enorme e metia medo de verdade. Tanto é que um dia, um amigo estava sentado perto do portão, todo tranquilo, quando o Rajá chegou por trás e deu um latido tão apavorante que o menino ficou gago!
De uma outra oportunidade, o tio Walter e o tio Carlito, que eram incrivelmente parecidos, tiraram uma fotografia, cada um de um lado do Rajá. Quando o tio Walter mostrou a foto para um colega, este estranhou: "Como é que você conseguiu tirar a foto dos dois lados"? Hoje, com o photoshop, ninguém se surpreenderia.
Por falar em semelhança, são vários os casos em que o tio Walter e o Tio Carlito eram confundidos.
Um da vezes o tio Carlito estava no ônibus e um camarada falou com ele: "Paga a minha passagem aí". Ele pagou, era muito gente boa. Esse mesmo cara, alguns minutos depois, chegou à Neon Lux e ao ver o tio Walter, se assustou:
_ Como é que você chegou aqui antes de mim?
O tio Walter:
_ Cheguei faz mais de uma hora!
_ Como assim? Você acabou de pagar minha passagem no ônibus!

Outra ocasião, a mesma coisa, porém, em vez de passagem, foi uma cerveja que o tio Carlito pagou para um amigo do tio Walter.

Mais um caso:
Um belo dia, na rua Silviano Brandão, um amigo cumprimenta o tio Walter:
_ Oi, Carlito! Tudo bem?
_ Me desculpe, mas não sou o Carlito. sou o irmão dele, o Walter.
_ Oh! Me desculpe, você. Confundi.
No outro dia:
_ Oi, Carlito! Puxa, ontem eu dei a maior manota. Cumprimentei seu irmão pensando que fosse você.
_ Continua dando. Eu sou o Walter, de novo!

As fisionomias dos irmãos, e até de irmãs, sempre foram muito semelhantes. Certa vez, a tia Neuza estava em um ônibus quando um outro ônibus emparelhou com o dela. Ao ver a sua imagem refletida na janela, por causa do sol, seu primeiro pensamento foi: "O que é que o Fábio está fazendo aqui"? É que ela estava em Santa Luzia, onde mora faz muitos anos.

O Tio Renato e o Papai também eram constantemente confundidos. Já estavam tão acostumados que às vezes nem corrigiam a pessoa equivocada.

Foto: (http://cinfaes.olx.pt/dogue-alemao-arlequim-para-cobricao-iid-31916409)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Glaura




Não posso falar no Papai sem falar de Glaura. Lugar e pessoas amados. Onde ele se sentia aceito. Onde ele ficava à vontade. Aliás, como disse o poeta: "Um estado de espírito", mais que um lugar.
Falar do Raimundo e falar da Geni.




Quem os conheceu nunca, nunca poderá esquecer! A Sabedoria quando encontra a Generosidade = o tal AMOR de que nos fala a Bíblia. Aquele da língua dos anjos. Pois antes do Papai nascer, a Geni já fazia parte da sua vida. Grande mulher que ajudou tanto a vovó América. A amizade que enfrentou momentos ruins. Amizade que compartilhou alegrias e continuou nos filhos e os fez meio irmãos. Acredito que daí vieram muitas lições, aprendidas verdadeiramente de cor - de coração.
Em Glaura, o Papai era o próprio 'pinto no lixo' pois com seus defeitos e qualidades era recebido e que com sua alegria era benvindo.
Quantas histórias!
O tombo da jaboticabeira. As noites viradas no cassino. A gincana e a Branca de Neve. O cuité ardente. As partidas de voleibol. A festa 'julina'.
Os carnavais. A briga que deixou o Boca ferido.
Cantorias sensacionais.
Capeletes deliciosos. O Trupicão do Raimundo nas mesas de truco. As farras homéricas e as ressacas iguais. A sua "blusa de Glaura" cheia de bolsos para guardar as fichas. As mesas enormes de bingo. A falta d'água de tempos remotos. O banheiro debaixo do chão. E de manhãzinha "ir no mato". As pitangas, ai, as pitangas! A chegada com a igreja se materializando subitamente. A cama do Tiziu com a lâmpada de plantão. O antigo quarto da Geni com o forro de palha. O piso de tábuas cantantes. A paineira linda.Sentar no muro da igreja. Sair para as novenas falando bobagem: o herege! Os passeios na bica e O Abominével Homem das Naves. Os doces maravilhosos: de mamão, de abóbora, de cidra... Queijos e chouriços. O fogão à lenha incansável. O quartão sempre cabendo mais.
E os incríveis natais e quando um dia, ele virou Papai Noel.
É pouco?
Tem muito, muito mais!
Foram tantos anos, foram tantas pessoas! O Papai foi com elas e ficou com elas. Num cantinho de Glaura o coração do Pandilim pulsa. Um tum tum de tamborim.

Foto 1: (http://www.glaura.com/crbst_19.html)
Foto 2: Acervo pessoal.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval e Piada







O Papai foi um grande carnavalesco. Junto com o tio Renato e Tio Maurício fez parte dos Bocas Brancas da Floresta, bloco caricato famoso em Belo Horizonte.
Foi no Carnaval de 1960 que ele conheceu a Mamãe. O Papai estava noivo e começou a namorar a Mamãe antes mesmo de desfazer o noivado. Aliás, ele nunca chegou a desmanchar o compromisso.
Para juntar o carnavalesco e o piadista, vamos relembrar uma piada que o Papai gostava de contar.

Seguia a procissão ladeira acima e o padre puxava os cantos:
_ Os anjos!
_ ♫ Os anjos, todos os anjos...♪♪
_ Ave Maria!
_ ♪ Ave, ave, ave Maria
De repente uma jardineira desgovernada começa a descer o morro e o padre, apavorado, grita:
_ A jardineira!!!!!!
_ ♪♫ Ô jardineira por que estás tão triste...♫♪







Fotos: Acervo pessoal.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Teimoso como uma mula!



O Papai estava estudando, interno, numa fazenda-escola em Florestal, MG. Debaixo da cama, no dormitório, guardava de sapos, folhas e sementes a cobras e lagartos. Estava gostando muito da escola até o dia em que disseram:
- Amanhã vocês vão aprender a montar a cavalo.
_ Eu, não vou!
_ Claro que vai!
_ Claro que não vou!
_ Vamos ver!

À noite, soltou todos os bichos que tinha capturado e arrumou sua trouxinha.
De madrugada, fugiu da escola e veio pra Belo Horizonte. A pé. 68 quilômetros!


Exibir mapa ampliado

Chegou em casa já noite e subiu numa árvore do quintal, morrendo de medo!
O Carlinhos, marido da tia Walquíria, escutou um barulho e, pensando que pudesse ser ladrão, gritou:
_ Desce daí, senão eu atiro!
_ Atira, não! Sou eu, o Fábio!

Foi uma confusão. Quando ele explicou porque fugira, queriam mandá-lo de volta, mas o tio Carlito resolveu a questão:
_ Se ele não quer ir, não vai!

E o Papai, ficou eternamente grato ao irmão.

Foto 1: (http://downloads.open4group.com/download/wallpapers/bart-fugindo-de-casa-18472.html)
Foto 2: google maps.

Infância




Papai nasceu em 1931. Essa foto aí é desse ano - Dá para ver até o viaduto de Santa Teresa. Era o nono filho e a fila ainda ia andar! Teve tempo e oportunidade para se esparramar pela cidade, então Jardim, mas que tinha muito era brejo! Ele contava que pegou muita 'maria sapuda' onde hoje são avenidas, como por exemplo, a Prudente de Morais.
Foi uma infância de liberdade e aventuras. Mas foi também época de vacas magérrimas.
Catava metal, ossos e outras coisas para vender e ganhar um troquinho. Dizia que houve um tempo em que passava tanta necessidade que enfaixava um dos pés para ir à escola, para economizar sapato. Na outra semana, enfaixava o outro pé. Ô menino que se machucava!
Eu não tenho muita certeza mas acho que foi a sua prima, Arilda, que trabalhava no Bazar Americano, quem arrematava brinquedos com pequenos defeitos (nossa ponta de estoque) para deixar nos sapatos, no Natal. A Tia Vera falava que quando acordava de manhã e pegava uma cadeirinha de boneca toda torta, achava o Papai Noel um relaxado!
Um dia, andando pelas ruas da Floresta, o Papai viu seu primo, Clóvis, que ia comprar pão, deixar cair uma nota. Ele catou o dinheiro, caladinho, foi até a venda e comprou tudo de doce. Comeu sozinho! Ficou com a consciência pesada, falava - "até hoje!".


Foto: (http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=831846)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Alta Gastronomia



O Papai não agradava de frescura.
Gostava de tudo muito simples.
Gostava de tudo. Simples.
Gostava de tudo, muito.
Menos de cebola, mas se ele não visse a dita cuja, comia também.
Para ele a medida era fácil: mais.

Cotidiano Frugal

Levantava de manhã e ia tomar café. Para não perder tempo procurando a sua caneca - tinha que ser caneca, e de plástico(!) e grande(!!) - colocou um ganchinho no armário para dependurar, bem à mão. Tomava café com leite. Aí ia para a mesa e comia o que tivesse: pão com manteiga, rosca, bolo, biscoito, etc, etc e tal. Se tivesse todos esses, comia de tudo. Tomava café puro. Depois ia para a cozinha e tomava leite puro. Dava uma enxaguadinha básica na caneca e pendurava de novo. Não precisa dizer que a tal caneca ficava ensebada e a gente tinha que jogar fora e comprar outra, precisa?
Como ele trabalhava na oficina nos fundos da casa, portanto muuuuito longe, ele levava uma merendinha fundamental: bananaS, maçãS, quaisquer frutas à disposição, incluindo melancia e abacaxi. Antes do almoço (que tinha que ser às 11:30), ainda dava um pulo na cozinha para um lanche rapidinho, geralmente, coalhada.
Não fazia questão de muita variedade nas refeições, desde que tivesse pimenta.
Não dá para explicar o fanatismo dele por pimenta. Só quem olhou o arroz vermelhiiinho no prato dele pode ter ideia. Só quem o viu colocar pimenta até no queijo-de-minas ou no pão percebe o drama. Uma vez, dei de presente pro Papai um vidro de pimenta que comprei no Mercado Central: vários tipos de pimenta em camadas numa linda composição! A primeira coisa que ele fez foi despejar tudo no liquidificador e fazer uma maçaroca bem nojenta, blergh!



Intoxicação

Já que eu falei de quantidade e falei de fruta, deixa eu contar da vez em que ele foi pescar lá no alto São Francisco. Pediu para alguns meninos da região arranjarem caju. Eles trouxeram um balaio cheio de uns cajus pequenininhos que o Papai comeu como tira-gosto das cachaças que ia tomando. Depois de algum tempo ele, já passando mal e todo empolado, contou trinta e tantas 'caretinhas' de caju. O pessoal que estava junto achou que ele ia morrer! Ele sobreviveu à intoxicação assim como sobreviveu o costume dele de comer fruta de tira-gosto.

Mais uma do tio Rúbio



... E já que eu falei em pescaria vou falar também de uma certa ocasião em que foi uma turma da família 'dar uma pescada'. Eles iam acampar na fazenda de um conhecido, mas como chegaram tarde da noite, a dona da fazenda ofereceu um canto para eles ficarem até a manhã seguinte. Arranjou uns colchões de palha e já ia dizendo 'boa noite' quando o tio Rúbio perguntou:

_ Será que não faz mal a gente dormir de barriga vazia, não?

Depois das gargalhadas ela ainda providenciou um franguinho esperto pro pessoal. Anfitriã da melhor qualidade!


Fotos: Acervo pessoal.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Edição Extraordinária



Com a colaboração da Zeneide e patrocínio do Renato, o Peido Mortífero:

No casamento do Duílio, em Brasília, quando alguém entrava no banheiro depois que o tio Renato saía, pedia pra morrer! Então, o tio Rúbio, para a felicidade geral da nação, colou na porta, em letras garrafais, o cartaz:

USO EXCLUSIVO DO RENATO



Pois o peido do tio era(?) tão... poderoso que quando ele soltava um, ele mesmo levantava para ver se não tinha furado a cadeira.

Foto: Encontrada na internet, sem crédito.

Carteado



Tem coisa mais Tunes que carteado?
Estou falando da turma 'cabeça de algodão' porque da nova, não tenho notícia. É bem triste isso. Novos tempos, correria, muita gente e pouco encontro. Aposto que tem gente engraçada nas novas gerações.Gente aventureira, festeira, inteligente, trabalhadora. Mas e o tempo que não deixa? E a distância que aparta? Quantos casos mais para contar e essa teia enorme vai ficando inacessível. Algum herdeiro do contador de piadas? Algum sucessor do pandeirista? Alguma crocheteira mágica? Algum artista dos vidros? Se manifestem aí, nos comentários! Queremos saber das mesas de buraco. Queremos de saber dos corajosos que, sem máscaras contra gases mortíferos, encaram horas em frente ao pano verde. Sim, nossos cientistas perderam uma grande oportunidade: Pesquisar o gene responsável pela imunidade ao gases mais letais. Já houve vez de se ouvir:

_ Pôxa, Renato, quando a Zeneide cozinhar urubu pede pra, pelo menos, tirar o papo!

E as brigas? Brigas por causa de um mísero seis de paus descartado displicentemente:

_ Que beleza! Deu uma canastra limpinha pra eles!!!
_ Você queria o quê? Não deixa passar um lixo! Trabalha na SLU, é?
_ Pelo menos não sou burro igual a você!
_ Era! Deixei de ser! Nunca mais volto aqui pra jogar essa ﻭ%#¥ώ&£.

E assim, nunca mais (próximo domingo), o jogo recomeçava!

Foto: Acervo pessoal. (De alguém...)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Colaborações



Pois é, Pessoal, o blog já teve colaboração.
O Marcinho, filho do Tiziu, irmão do Fabão...
Ah é! Para quem não sabe o Papai era um dos treze filhos da vovó Meca e do vovô Carlos.
Vou explicar: Vovô Carlos, mãos e alma de artista, com tudo de bom e de ruim que um espírito independente significa. Meca, a vovó América, uma doce, doce fortaleza!
Sabe aquela mulher que qualquer um gostaria de ter? Mulher, irmã, mãe, avó e vizinha e tudo o mais de desprendimento e dedicação. Batalhadora, mãos de fada, pele de seda e coração gigante!
Deixou no planeta Terra saudades infinitas e uma herança admirável. Seus filhos e filhas, criados em tempos difíceis, com muita luta mas nem por isso com menos atenção ou carinho. Todos exemplos de honestidade, ética, trabalho, inteligência, alegria e carisma.

Tia Iris: Tia-mãe. Tia cultura. Receptividade.
Tio Wálter: Tio trabalho. Tio amor. Responsabilidade.
Tia Walquíria: Tia sorriso. Tia histórias. Beleza.
Tia Ismênia. Tia vaidosa. Tia desprendimento. Bondade.
Tio Carlito: Tio inteligência. Tio 'sem beijo'. Autenticidade.
Tia Neusa: Tia ternura. Tia altruísta. Força.
Tio Renato: Tio dedicação. Tio talento. Generosidade.
Tio Rúbio: Tio musical. Tio superação. Verdade.
Tiziu (Tio Márcio): Tio afável. Tio discreto. Serenidade.
Tia Vera: Tia independência. Tia requintada. Liberdade.
Tia Maria Virgínia: Tia Afeição. Tia festa. Suavidade.
Tio Maurício: Tio simpatia. Tio caçula. Carisma.

Claro que não é simples assim. São impressões que despertam. Lembranças muito queridas, presenças amadas. Aos poucos vou pintando um quadro. A suavidade ou a veemência das cores aparecem conforme a perspectiva.
Mas chega de filosofias...Voltando à vaca congelada, o Marcinho, filho do Tiziu, agora em terras lusitanas, lembrou mais alguns casos:

Tia Itália

O Papai tinha costume de usar, na presença de 'senhouras' e crianças, digamos, eufemismos. Alguns exemplos:

Vagina: perseguida
Bunda: rosto
ânus: chibiu,tomé de Sousa

Numa certa ocasião ele tinha ido ao banheiro (Deus é mais!) e voltou falando:
_ Pôxa vida, o assento da privada tá rachado e belisca o 'rosto' da gente!
Ao que a irmã da vovó América, a tia Itália, retrucou:
_ E lá isso é lugar de colocar a cara!


Mais uma de Futebol

Alguns dos irmãos, 3 ou 4, se não me engano, foram jogar contra um time de surdos-mudos, que estava desfalcado. Por isso, um dos Tunes entrou pro lado adversário para completar. Tenho quase certeza de que foi o Tiziu. Lá pelas tantas, ele gritou pedindo a bola. Na arquibancada um espectador gritou, espantado:
_ Oh! O mudo fala!


Agora, colaboração do, agora baiano, Chico, (filho da tia Walquíria):

Outra charada do Papai:

Ora o padre na kalunda. 2 e 2.

Quem se habilita?


Foto: Retirei do perfil do orkut de uma prima,mas faz tanto tempo que nem sei se ainda está lá.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Maria, Mariazinha

Hoje é Domingo
Pede cachimbo
O cachimbo é de barro
Bate no jarro
O jarro é de ouro
Bate no touro
O touro é valente
Bate na gente
A gente é 'fraco'
Cai no buraco
O buraco é fundo
Acaba o mundo
O mundo é grande
Vai pro c* do conde
(versão Fábio)


Para relembrar a música obrigatória de todas as festas:

Maria, Mariazinha


video

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Gororoba





Para quem tinha a vocação de contar histórias, a tampa encontrava o seu balaio: Ouvir o Papai contando tanto caso, acontecido ou inventado (ninguém tinha certeza), era uma delícia. Uma puxava outra e o tempo passava sem a gente sentir. Ele tinha a capacidade de dar uma volta no quarteirão e chegar contando uma novidade, um acontecido, uma piada. Desde sempre era a minha maior diversão. Tenho certeza que veio daí a minha paixão pela leitura.
Que privilégio ter tido a oportunidade de, toda noite, empoleirada na cama, ouvir histórias e aventuras mirabolantes, emocionantes, engraçadas, misturadas, ... meu 'Sherazado' exclusivo! Ele era brincalhão e vivia inventando moda.
Nós tínhamos a mania de brincar de charadas:

_ Um animal, na torre da igreja, está doente. 2 e 2.
_ Hum.... Não sei.
_ Um animal: tatu (2 sílabas). Na torre da igreja: sino (2 sílabas). Está doente: 'Tatussino' (tá tossindo)
_ Assim não vale!


_ Fala mal, o filho do Couto. Mas não é ele, é o outro. 2 e 3.
_ Deixa eu ver... Desisto! (1 hora depois).
_ Fala mal: gago (2 sílabas). O filho do Couto: Coutinho (3 sílabas).
_ ????
_ Sacadura Cabral.
_ ?????????

Fábio é Cultura: Gago Coutinho e Sacadura Cabral foram aviadores portugueses muito famosos que fizeram a primeira travessia, de avião, do Atlântico Sul (Lisboa-Rio de Janeiro)
.


_ Está com raiva. Está na escrita. É um animal feroz. 2 e 2.
_ Nem ideia...
_ Está com raiva: brabo. Está na escrita: letra. Animal feroz: braboletra


Quem quiser, colabore com outras porque o caso aqui é da época em que ele serviu no Exército.
Ele contava mil casos de lá. Adorou essa época e se lembrava até dos números de inscrição dele e dos seus companheiros (e jogava esses números no jogo do bicho).

Recruta Fábio

Ele detestava a comida do quartel. A Tia Vera, sua irmã, então uma adolescente, levava marmita para ele.
Um dia, no bonde, se sentou perto de um oficial que, perto daquela belezura, foi logo puxando assunto:
_ Pra onde está indo, mocinha?
_ Vou levar comida para o meu irmão, no quartel.
_ Quem é o seu irmão? Será que eu conheço?
_ Não sei, é o Fábio Tunes.
_ E por quê ele não come lá?
_ Ele falou que a comida é horrível. Que lá é a maior porcaria. Tem até rato no feijão!
_ Puxa! Que coisa, heim?

Mais tarde, o Papai é chamado na sala do Capitão.
_ Soldado Tunes!!!
_ Pronto, Capitão!
_ Quer dizer que a comida aqui não presta, é? Que tem até rato boiando no feijão?
_ Sssó um camundonguinho deeeeesse tamanhinho!!

Foto: Acervo pessoal.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Futebol, Claro!



Paixão é paixão. Por isso não há explicação ou justificativa. Parece que para algumas pessoas apaixonar-se necessita exclusividade. Não para o Papai. Tinha várias paixões. Era mesmo exagerado!
Pescaria, festa e viagem, já falei.
Queijo, subentende-se do título do blog.
Pimenta, sempre, todas e até com queijo!
Cerveja, precisa falar?
Esportes, em geral, assistia tudo: olimpíada, campeonato de pôquer, purrinha, sinuca e cuspe a distância.
E futebol. Tinha uma memória! Lembrava quem cobrou o 5º lateral do 2º jogo do campeonato municipal de 1956 de ... Nova lima. Dá para perceber?
É claro que com aquela pança já deixara de jogar a muito tempo (mas mesmo com a pança foi jogar em Glaura e deu um bicudo no chão que arrancou a sua linda unha do dedão - mas isso eu conto em outra oportunidade... chegaremos lá).
Na juventude, saía com a chuteira debaixo do braço e a vizinhança perguntava:
"Onde vai ser a briga hoje, Fábio"?
Foi numa dessa que aconteceu o caso que segue.


Juiz Imparcial

Num desses jogos de várzea, naquela época em que Belo Horizonte ainda não tinha sido toda confeitada de concreto, o mando de campo era do adversário ... assim como o juiz.
A peleja estava duríssima e numa jogada de mestre o 'center half' foi à linha de fundo, fez um cruzamento preciso e o artilheiro marcou um golaço.
O Juiz, então, apita e anula o gol:
_ tsc, tsc, tsc, tsc. Não valeu. Quem tem que cruzar é o ponta!
Vai entender...

Foto: Acervo pessoal.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Oliveira


Quem gosta de piada levanta a mão!
Era com o Fabão, mesmo. O primeiro a chegar nas festas e o último a sair... isso, quando saía. Tinha vez que dormia no local e começava de novo no dia seguinte.
Gostar mais que de festa, acho que só de pescaria. Qualquer pescaria. Será que pescou na Pampulha? Tenho minhas dúvidas...
E viajar. Qualquer lugar. Até Ouro Preto, que ele achava horrível, mas ia assim mesmo. Costumava falar: "Em fotografia colorida, até Ouro Preto é bonita". E foi de uma viagem que contou outro caso:


O Cozinheiro de Oliveira

Uma vez em Oliveira, já estava cansado de "tanta bicha" que via. Tudo muito delicadinho, muito bonitchinho, rebolandinho e tal. Deu uma fome danada (que milagre!) e foi procurar um restaurante para almoçar. Veio um atendente bem normal (!!)
_ Pois não, senhor.
_ Me serve uma refeição, por favor. E uma cerveja beeem gelada!
_ Bife de boi, bife de porco, frango ou peixe frito?
_ Pode ser o peixe. Caprichado, tá bom?
_ É pra já!
Até que enfim sem frescura!
Foi quando o cozinheiro chega naquele passa-pratos entre a cozinha e o salão e pergunta com jeito inconfundível:
_ Quer o peixe bem torrathinho?

Consegui a foto assim: Pesquisei "veado" na internet. Apareceu a foto, copiei e, como não sabia que tinha que colocar crédito, não prestei atenção. O dono, desculpe e manifeste-se, por favor!

Para Meu Pai


Olá a todos!

Sem pretensões, sem alarde e, eu espero, com muito humor, virei contar alguns dos casos do Papai.
Para quem não conheceu, o Fábio, o Garnizé, o Tunes, o Fabão, o Pandilim, o Papai Noel, ... quem conheceu, esteja à vontade para contribuir com mais algum apelido que eu possa ter esquecido. Alguns podem parecer estranhos, mas todos, à sua época, "vestiram" bem esse homem que nem gostava muito de se vestir... muito menos calçar: bermuda e um chinelo era o que lhe convinha perfeitamente.
Mas não se enganem, não era nenhum vagabundo como possa parecer. Ao contrário, foi um trabalhador, um batalhador, um brigador (em vários sentidos!).
É que ele era muito calorento e detestava qualquer formalidade. Ele era um avacalhado. A mamãe brigava constantemente com ele por ser tão desleixado (relaxado, ela dizia). Ele adorava água: rio, mar, lagoa, piscina... mas detestava o tal chuveiro. Com sabonete, então! "Já tomei banho sábado passado. Quer que eu viro peixe?"
Ah, Papai! É muito difícil apresentar. É tanta coisa! O grande carisma, o apetite enorme, o humor imenso, a barriga exagerada e o estopim curtinho...E muitas, muitas histórias.
Uma das melhores:



O Caso do Boné

Domingo, depois do almoço, ele no bar do 'Seu' Carlos, no Barreiro. (No bar, DEPOIS do almoço? Pois é.) Tinha tomado umas e outras e resolveu ir ao Mineirão. Pediu emprestado o boné do seu amigo que não quis emprestar.
_ Ô, Fábio, nem é meu!
_ Empresta aí, sô. Eu prometo que devolvo.
_ Tá bom, mas toma cuidado, viu?

E lá foi ele todo pimpão pro 'campo', como falava.
Tomou mais umas e mais outras.
O Cruzeiro perdeu!
Saiu P*** da vida, xingando tudo quanto é palavrão, quando passa um mané, tira o boné do Papai e sai correndo... com o Papai atrás, é claro, que deu uma 'manjada' no safado. Naquela confusão de fim de jogo, depois de alguns minutos ele alcançou o malandro: Tomou de volta o boné, deu uns sopapos no atrevido e foi embora todo orgulhoso!
Na volta, devolve o boné para o amigo:
_ Aqui, seu boné... quase me roubaram ele, mas, como eu prometi... tô devolvendo.
_ Que é isso, Fábio, esse não é o meu boné, não!
_ Bem que o camarada olhou pra mim como uma cara esquisita!

Foto: Acervo pessoal (da Anete!).