terça-feira, 26 de julho de 2011

Friiio!






Faz frio. Isso afeta minha preguiça, meu sono, meu apetite, minhas férias e meus pés.
Lembro da Mamãe, com suas tantas calças e tantas mais meias correndo atrás das nesgas de sol.
Não fui ao cinema e só mesmo a expectativa de encontros queridos me tira de casa.
O vento me ameaça como arma.
O chuveiro me irrita ao contar gotas.
Pendurar roupas molhadas me  agride.
O azul do céu invernal perdeu para o cinza, vergonhosa e infelizmente.
É por isso que eu...
Sonho com lareiras e sopas escaldantes. Tomo chocolate quente perfumado com canela.
38° na banheira (se a tivesse).
Pijama de flanela, como os que eu usei na infância e também usaram o Frederico e a Isabela. Com florezinhas ou bichinhos delicados.
Filmes intimistas ou comédias. Porque a alma fria suplica!
Vinho e queijo e pão italiano.
Conversas intermináveis e casos de pavor.
Fogueirinha, céu estrelado e piadas entre tremores.
Abraços são benvindos. Histórias sob as cobertas. Mantas de lã coloridas. 
Ideias avulsas de uma "dona" saudosa e enregelada.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Escavações


Aqui vamos nós. Camada após camada de nós. Com o que nascemos, o que nos foi dado, o que sofremos, o que ganhamos, com quem vivemos, o que conquistamos, ou mesmo perdemos mas deixou marcas em nós.
Estamos aqui, em vias de não estarmos mais porque mudamos a cada mísero instante.
Mas nossa bagagem vem junto.
No momento de alegria, cavamos um pouquinho e achamos aquele sorriso tão nosso conhecido.
Este nos contagia.
No momento de angústia, cavamos mais um pouco e recolhemos aquela força de que precisamos e que está ali: infalivelmente.
E ela nos ampara e nos suporta.
Experiências? Aos montes! Em cada cavacada, uma. Igual minhoca.
Lembranças? Essas, não precisa nem cavar. Vêm pulando ao nosso alcance. As boas e as nem tanto. Até as horrorosas, mas que também ficam ali marcando nosso relevo vital (cacófato ordinário!).
Mas e daí? Quem quer viver na planície árida e tediosa?
Aqui vamos todos. Cultivando nossa paisagem.
Nossos vales soturnos, declives perigosamente escorregadios, íngremes desfiladeiros, morros dos ventos inebriantes (pensaram que eram uivantes? Enganei todo mundo).
A família é uma rocha, ou uma gema preciosa. Às vezes, uma pedrada mesmo. E dolorosa!
Cada amizade um regato, ou um turbilhão -  ou um lençol submerso em profunda identidade. Nos refresca ou faz lama, que importa? Esculpe nossa jornada.
Aquilo que não deixou marca, foi o cisco insignificante.
Porque até o vento; principalmente o vento, cantante, agressivo, frio ou reverberante, enfeitou nossa existência.
E ainda vamos... Escavando o nosso destino.
Imenso destino porque é nosso e nada é por acaso!
Atentos, soberbos desbravadores.
Colecionando horizontes, preservando os vestígios. 
Quem lerá nossas entranhas?
Que contará nosso fóssil?
O que for, é real e deslumbrante.


 

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Eu Aceito

Eu aceito o frio de hoje, mas que ele venha colorido.
Aceito a ausência, mas que ela me conte uma história.
Eu aceito a briga que termina em beijo e abraço.
Eu aceito o grito, acompanhado de guitarra, baixo e bateria.
Aceito o fogo se a fumaça cheirar a alfazema.
E a sede, caso venha ao por do sol.
Aceito o adeus, com relutância e o olá, com alegria.

Pode acontecer  a fome e a lágrima embaladas em lã branquinha que eu dou meu peito. Sorrindo.
Não renego a lama nem o pó do caminho, meus pés estão descalços.
Acolho a presunção inocente e o orgulho encabulado.
Até mesmo a dor eu pego, se ela vem coberta de mel de flor de laranjeira.
A culpa é bem vinda, latindo e abanando o rabo.
Aceito a estupidez bem humorada.
Aceito o mau gosto carinhoso, o ridículo bem intencionado e o esquecimento sincero.

Recebo a fadiga e o suor com sais perfumando a água.
Aceito a manha com saia de xadrez.
Admito a perfeição com a Angelina.
Aceito a vaidade com batom e Chanel n.º 5.
Aceito a mentira aconchegante com chá e biscoitos amanteigados.

Eu aceito qualquer coisa, desde que não venha sozinha.

domingo, 10 de julho de 2011

Escândalo!


Por algum motivo (?!?!) lembrei de um causo acontecido numa das festas da família.
Aí que esse acontecimento provocou uma celeuma danada ( Papai pronunciava "celéuma", o fofo!).
Não lembro da data da festa, não lembro do motivo da festa (precisa?), nem lembro a roupa que eu usava - viu, como não faz sentido nenhum a gente se descabelar procurando "A" roupa?
Mas eu lembro muito bem que tinha chopp, comilança, muita música, muitos tios e primos (ué, não era festa da família? dã!) e numa certa hora, a primaiada toda cantando "La Bamba".
Ta todo mundo careca de saber que essa música pode, ou não, acabar...(igual Andança). Depende do teor alcoólico da turma e, na ocasião, tinha alcançado os píncaros do Pico da Bandeira (pra não sair do país, sabe como é, passaporte, visto, etc).
Foco, Flávia, mantenha o foco!
Então.
La Bamba na 36.ª vez do refrão e o Robertinho me inventa de improvisar na letra:

- Minha avó é maconheira, por ti seré, por ti seré, por ti seré... Bamba , Bamba...
Ô povo sem respeito!


Foi bom demais!
E tem gente que não gosta de festa, af!!


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Muito

O tanto que eu gosto é muito.
Eu aprecio quando entorna pelas beiradas ou quando ultrapassa o limite (assim como o chantilly sobrando da taça).
Tenho uma queda pelo excesso e pelo exagerado.
Meu limite é um pouco além do recomendado. Acho que quase tudo é ótimo, desde que não seja pouco... Economizar me parece um desperdício, em tese. Guardar para quê, se o amanhã pode nem haver? Há quem exercite essa incongruência, vá lá: o mundo é bem grande e nele cabem todos os tipos. É até bom que alguém o faça, porque se depender de mim...
As cores da minha cartela gritam. Meus amores são extremados e, ainda bem, nunca odiei!
A minha festa ideal começa um pouco mais cedo e dura até depois da ressaca que, claro, é um pouco mais pior. (Não adianta o corretor do Word vir dar pitaco no meu texto... é “mais pior” mesmo. Além disso, ainda que não seja poesia, vou assumir a tal da licença poética, tá?) .
Minha comida peca por um tanto a mais de alho, cebola e pimenta ou manjericão. E em questão de quantidade, geralmente é o dobro. O meu doce tem chocolate e leite condensado e creme de leite e fruta, certo?
Crise de riso, para mim, é normal, muitas vezes até engasgo.
Meus choros se chamam pranto e costumam acabar com edema dos olhos, rouquidão (por causa dos soluços) e duas Neosaldinas ® para combinar com o quarto escuro.
Costumo me envolver demais em tudo, sou boba demais e minhas raivas são terríveis!
Falo pelos cotovelos, joelhos e omoplatas.
Se tenho que fazer, que seja logo. Se tenho que esperar, já vou deitando. 
Leio cinco livros ao mesmo tempo, ouço uma música dez vezes seguidas, fácil, fácil...
Tenho a sorte de não ser religiosa: risco iminente de fanatismo...
Extremamente ansiosa, absolutamente dramática, beiro a histeria. Ou ultrapasso?
Consigo trafegar do otimismo mais exuberante ao pessimismo mais paralisante e meu psiquiatra jura que eu não sou bipolar!

Eu me pergunto 763 vezes por dia: será que eu tenho conserto?

domingo, 3 de julho de 2011

À Roda



Um belo dia, quando estava mostrando para o Frederico e a Isabela um filme do Mazzaropi, apareceu uma cena em que algumas crianças brincavam de roda. D.Isabelinha disse:
- Nossa, que brincadeira mais besta!
Na hora eu ri e quase concordei. Parecia mesmo besta, ficar andando em círculos, cantando uma musiquinha meio bobinha, de mãos dadas umas com as outras... Tédio!
Depois, eu encalacrei na minha cabeça o pensamento: Puxa, será que eu era besta, mesmo? Porque eu adorava brincar de roda!
Por muito tempo isso me "rodiava" no pensamento.
Até que, de repente, não mais que de repente, resolvi sair à cata de mim mesma, lá nos tempos remotos em que ser besta era comum e descobrir a explicação, de uma vez por todas, do porquê de tanta besteira.
Descobri um montão de coisas, espia:
Descobri que ser criança não tem explicação, porque ser criança é que ensina as coisas. As explicações, só complicam.
Percebi que estar com amigos é tão bom, mas tão bom, que dispensa qualquer pretexto ou subterfúgio. E se, além de estar com os amigos, a gente ainda pode tocar neles... então é a glória! Imagina sentir a força e a delicadeza das mãos que compartilham nossas aventuras, medos, alegrias, raivas, enfim, nossa vida! Sentir a pulsação, o suor dos corpos num ritmo comum nos torna UM! Insuperáveis! Indestrutíveis! Admiráveis!
Tudo isso, ao som de uma melodia que não precisa muito intelecto. Só a certeza de que tem música a embalar nossa vida. A música que veio antes do nosso ser, a música simples e primordial, dos tempos imemoriais e, por isso, inesgotável.
E ainda tinha ar livre. Tinha presente a ausência do "adulto" (quem precisa vigiar crianças brincando de roda?) supervisor.
Tinha o movimento repetitivo, quase hipnótico na sua regularidade. Puro instinto: continue a rodar - diria a Dory.
E, acima de tudo, tinha a despreocupação. Nada importava. A não ser estar ali. 100% ali. Completamente.
Mais tarde, nós, adultos de todas as idades, vamos procurar insistentemente a mesma sensação. De pertencer completamente a um momento, a um grupo e a um existir. E pagaremos caríssimo por isso. Drogas, empregos, casamentos, comportamentos que propiciem aquele abandono e aquele bem estar. Não tem o melhor rodador, nem o melhor cantor, nem o mais rápido,nem o mais bonito. Melhor é o quanto mais amigos. Melhor é o fazer junto e ao mesmo tempo e na mesma intensidade..
Acho que a Isabela nunca saberá a complexidade de uma brincadeira de roda - a não ser que participe de uma. E, mesmo assim, sendo uma criança de uma era que precisa de bites e bytes pra provocar emoção, talvez não tenha a bestagem suficiente. Crianças que já nascem competindo: o melhor carrinho de passeio, a mamadeira mais tecnológica. O quarto mais cheio de design e a escolinha que mais cedo prepare para o vestibular, símbolo mor da possibilidade de ser um winner!!!!
O último Ipod e a rave mais descolada trazem prazeres diferentes.
A maturidade precoce dos nossos sarados jovens poliglotas os preparam para um tempo diferente, escolhas diferentes, é claro.
Talvez o que a nossa Terra (essa que brinca de roda com os outros planetas do universo) precise, é de gente um pouco mais besta para que, juntos, no ritmo puro da cirandinha, tenhamos um bocado mais de paz e de felicidade.