segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Pietra


O nome dela é Pietra
Vive no bairro Castelo
Essa história, eu espero,
Despertará atenção

Foi numa noite de outubro
Não lembro se tinha lua
Só sei que veio da rua
E uivava de solidão

Sua dor era tão forte
De medo e desesperança
Que acordou a vizinhança
Provocou irritação

O tempo escorreu lentamente
Naquela mesma madrugada
Deram tiro na coitada
Por sorte não acertou, não.

Bem cedo pela manhã
Fui ver como ela estava
Encolhida e apavorada
Senti muita compaixão

Dei-lhe água e alimento
Fiz festa na cachorrinha
Ela sorriu bem mansinha
Entregou-me o coração

Foi assim que a Pietra
Começou a aventura
Sentindo que estava segura
Partiu logo para a ação

Cada dia mais esperta
Tomando conta do lote
Sabia que era mascote
Espantava até ladrão

Ficando sempre mais linda
O negro pêlo acetinado
Arranjou um namorado
Começou a gestação

Nasceram oito filhotes
A metade era de fêmeas
E os outros, irmãos das gêmeas,
Cada qual uma perfeição

Não sei como conseguia
Amamentar essa turma
Com um barulho desses durma
Quem não tem compreensão

Afirmo que me comovia
A mãezinha abnegada
Cuidando da filharada
Com tanta dedicação

Mesmo assim ainda tinha
Quem da Pietra reclamasse
Não era cachorra “de classe”
Pura discriminação.

Eram fofos os filhotes
Foi pura felicidade
E até com facilidade
Que consegui adoção

Fiquei sentida, é verdade,
Porém o certo foi isso
Eu tinha esse compromisso
Era a única opção

É claro que ela sofria
Mas com tudo se acostuma
Ela era só mais uma
Com a dor da separação

Ela acabou superando
Com o tempo, se acostumou.
De carinhos me cercou
De alegria e atenção

E eu também reconheço
Que me apeguei tanto a ela
Sei que essa linda cadela
Já virou minha paixão

Adoraria morar
Numa casa com quintal,
Com jardim e coisa e tal
E poder ter mais um cão.

A realidade, porém,
É que moro, no momento,
Num pequeno apartamento
Cheio de confusão

O gatinho Ferdinando,
Os cães: Fritz e Fulô.
E haja tanto cocô
E xixi também, de montão.

Vim contar essa história
Espero ser bem sucedida
E encontrar pra minha amiga
Um lar, um abrigo e atenção.

Ela merece isso tudo
E mais: a felicidade
Ela provou que de amizade
Está cheio o seu coração

Peço a quem possa ajudar
A terminar essa biografia
Proporcionando a alegria
De uma comemoração

Que Deus proteja e abençoe
Aquele que abre os braços
E ata os profundos laços
Do verdadeiro amor de um cão.

Foto: Isabela Tunes

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Quatro Anos!


Há quatro anos eu segurei pela última vez aquela mão enorme entre as minhas.
E senti meu coração esmagado quando vi, por uma fresta na porta, os médicos desligarem o monitor, quando o coração dele resolveu que era hora de descansar. Foi a quatro anos atrás a vez derradeira em que eu senti o calor da sua pele e afaguei seus cabelos brancos, suados, mas macios. E foi minha, cheia de amor e preocupação, a última voz, conhecida, que ele ouviu.
Por todo esse tempo eu quis ouvi-lo me chamando de "Bichinha" ao telefone. E desejei escutar: "Eu já te contei aquela?" E ansiei ver seus bolsos cheios de balas para os netos. Ter um vidro de pimenta reservado, na cozinha, para ele.
Ele teria adorado o apartamento que eu e o Léo compramos. Ele viria repartir conosco e com a Rosa e o Renê, nossos vizinhos, os momentos "gourmet", as histórias, os casos, as anedotas. Ele estaria exibindo e estragando a Maria Eduarda, a bisneta que não conheceu. Sentiria orgulho da Adriana. Faria adereços para o Leozinho se apresentar no Excalibur. Tentaria ajudar o Eduardo a dar um rumo na vida. Ampararia o Fabinho, mesmo se desentendendo com ele. Ele teria, muito provavelmente, adotado a Pietra, a cachorrinha da rua que eu adoro e de que cuido. Teria "altas" conversas com o Frederico e provocaria gargalhadas na Isabela.
Eu sonho e sonho com ele.
Ele está sempre muito feliz.
Eu estou feliz por tê-lo encontrado.
Eu sou feliz por ser sua filha.
E ele faz muita falta!


(Crédito da foto: Ricardo Aluotto)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O importante é a rima que dá!


Que canseira!
E olha que só tem um mês e meio que eu só estou trabalhando e estudando e cuidando de casa e cozinhando e lavando e dando atenção para marido e filhos e ...Hã!?!
Mas o importante é ter saúde: Tirando a sinusite e depois a gripe, estou Uótema!
Mas vamos ao que interessa.
Um dia desses estávamos conversando, lá no meu trabalho, sobre ditados populares e a chefe da minha seção se lembrou de um, que sua avó falava quando a netaiada estava reunida e tinha só um pouquinho de doce, ou de biscoito, ou qualquer outra coisa para repartir: Ela dava o restinho, sem "amarrar mixaria":

Coisa pouca não se regra
Acaba com isso que sossega.



Eu achei genial. E me lembrei de algumas expressões que eu ouvia e ficava tentando descobrir o que poderiam significar: Com a avó atrás do toco, por exemplo. Eu ficava imaginando a Vovó agachadinha atrás de um toco de árvore.
Faz pouco tempo, também, que eu li um livro, do Mário Prata, em que ele conta de uma amiga que morria de pena da coitada da Tumitinhas.Ela nunca tinha percebido que Tumitinhas, não era uma personagem na Cirandinha:

(...) O amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou!

O caso é que tudo que acontece comigo, durante o dia, no trabalho ou na escola, nos ônibus ou na rua, eu conto lá em casa. Cada casinho acontecido. Cada manota que eu dou. ( A Isabela quer morrer!) Nesse dia, conversando sobre isso, recitei umas trovinhas que o Papai adaptava. Ele era craque em "customizar" poesias, quadrinhas e até músicas. Algumas que eu lembro:

Joguei uma pedra no rio
De pesada foi ao fundo
Os peixinhos reclamaram:
Não joga pedra aqui não, pô!


Quantas flores pelo campo!
Quanto sangue derramado!
Será que mataram algum boi?


E tinha um sambinha muito bacana:

Ocês era o porta estandarte do bróquio
E dançava com imprefeição
Mas agora que bróquio acabô
Nosso samba num amiorô
Adevorve
Advorve o porta estandarte do Craudionô

Adevorve oh, nêga
Adevorve oh, péstia
Adevorve o porta estandarte que eu te deste!


E mais um, para encerrar:

Nóis era sete
Fumo morreno
Fumo morreno e só restaram
Eu!


Fui!


Crédito da foto: Cortesia de Beto Magalhães

domingo, 15 de agosto de 2010

Giovana



Por que?
Por que eu sonho tanto com você?
Por que eu acho que falhei em ser amiga?
Por que admirava tanto e procurava tão pouco?
Que falta é essa que eu sinto se, quando você ainda era acessível, eu mal via?
As dúvidas são muitas e as certezas também.
A certeza de que foi você quem me mostrou um lado "fun" da vida. Foi você quem me mostrou que se pode agradar sem fazer esforço algum. E foi você quem me ensinou o significado da palavra espontaneidade.
Também é seu o crédito pela minha inserção nas noites dançantes. E pela descoberta de um certo charme - insuspeito.
Como ser leve e resistente? Você me revelou. Assim como ser jovial, animada, atenciosa, generosa.
Como, tão diferentes, pudemos ser tão próximas?
Deve ser essa a persposta - ou a resgunta.
Mas você foi também a autora da maior e pior forma de me surpreender:
Tão cedo, tão incompreensivel e dolorosamente...
...E eu, gostava ainda gosto tanto de você!






Crédito da foto: Ricardo Aluotto
Vídeo: (http://www.youtube.com/watch?v=oiMB_6fSRn0)

domingo, 8 de agosto de 2010

Caleidoscópio em Família



Em primeiro lugar, mesmo sabendo que a data de hoje é eminentemente (*) comercial e, de qualquer forma, já é noite: FELIZ DIA DOS PAIS!.
Ainda bem que existe esse dia que obriga os mais distraídos a pensar um pouco no privilégio que é ser pai e ter pai!
Eu desfrutei o meu pai por muitos e muitos anos e, todos os dias, lamento que ainda tenho sido muito pouco.
Ontem, houve festa no apê da tia Vera. Não foi beeem no apê, foi na área de festa do apê, mas não precisamos de muito preciosismo. Foi ótimo, mesmo eu estando com gôgo (o google explica).
Eu falava com a prima Valéria, que o próximo post seria - e é - sobre o Cláudio. Sobre o Cláudio e sua relação de amizade com o Papai. É claro que tinha que ter um lance de pescaria: Morada Nova, Traçadal - um point muito frequentado. Apresentado pelo Cláudio e pela Terezinha. Até eu já fui lá. Mas, muito além das pescarias, havia um ritual: Toda vez que o Cláudio retirava um carro nova na Fiat, passava lá em casa para mostrar para o Papai e levar o "velho" para uma volta. Sei lá do que falavam. Sei lá dos silêncios, para ouvir o motor (ou não ouvir o motor). Sei lá das piadas e gargalhadas dos dois. Mas sei, sim, do orgulho que o Papai sentia. Do carinho que esse gesto representava. Da admiração mútua: um tio e seu sobrinho - laço que em muitas famílias já não representa quase nada, mas na nossa família, deixou marca profunda.
Na festa, ontem, vendo que a "foto dos irmãos" está tão cheia de ausências, dói um tantão, puxa!
Mas tem uma turma linda chegando! Gente, não se afastem! Preservem esse vínculo!

O que tem esse caleidoscópio a ver?
Em algum post eu comparei lembranças com quebra-cabeças. Mas também podem remeter aos caleidoscópios que o Papai adorava fazer . Colocava pedaços de acrílico, coloridos, brilhantes. Quando se mexe no aparelhinho, se desfaz um arranjo. A cada novo movimento feito, uma imagem diferente aparece. Qual a mais linda? No fundo, isso nem interessa. O importante é que as peças estão ali, juntas, compondo beleza e deslumbre! Como a amizade. Como a alegria. Como o respeito. Como o Cláudio. Como o Papai!

(*)Eu amo essa nossa flor do Lácio: que delícia de palavra: eminentemente. É claro que se eu falasse assim lá na festa, ontem, provavelmente levaria uma vaia daquelas! Então, consegui enfiá-la num blog assim, simplesinho. Não é que deu um ar chique?


Foto: Tirei daqui: (http://www.prendasdeanos.com/prendas-feitas-em-casa-caleidoscopio/)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Macarronada ao Suco




Aqui está a contribuição do Manoel (não, o Audaz, mas o Villani):

"Estávamos eu, seu pai e o Eduardo a caminho do Rancho do Bigode (O Neneco, filho da tia Conceição) localizado próximo à Pirapora - mais precisamente na Barra do Guaicuí, para mais uma de nossas aventuras de pesca. Na estrada, entre o trevão e a cidade de Curvelo, havia (ou ainda existe, nem sei mais...) uma porção de barracas espalhadas por suas margens oferecendo aos viajantes produtos diversos para compra, como frutas, verduras, pimentas, etc. E dentro do eticétera , tamarindos, que nem sei direito a que família pertence. Aí seu pai resolveu comprar os tamarindos para levarmos para saborear durante a pescaria. Comprou logo uma boa quantidade deixando-nos com aquele aperto peculiar na boca causado pelos alimentos azedos durante o resto da viagem. Ao chegarmos ao rancho, depois de toda a festa de recepção, a Cleide – companheira e sócia do Neneco no rancho pediu que uma de suas funcionárias tratasse todo o tamarindo extraindo sua polpa e preparando-o para fazer um suco bem geladinho e refrescante, o que nos ajudaria a minimizar o desconforto do forte calor que bate naquela região.
Tudo ajustado, a tralha de pesca e nossos pertences em seus devidos lugares, fomos rapidamente ao que nos interessava: o rio! Passamos os três a tarde toda dentro do barco dando banho nas minhocas e jogando conversa fora. Já quase ao escurecer o Eduardo propõe que a gente volte para o rancho, pois ele queria fazer uma bela macarronada para o jantar. E lá fomos nós para o conforto do rancho. Banho tomado, todo mundo refrescado, formos para a enorme cozinha e o Eduardo começou a preparar a macarronada. Carne moída e molho de tomates frescos já à disposição na geladeira. Foi tudo assim no vapt-vupt: não demorou muito e já estava tudo pronto. Macarrão cozido, molho à bologneza fumegante, vamos partir para os finalmente... E finalmente descobrimos que o molho de tomates frescos era nada mais nada menos que a polpa de tamarindo!!! Molhinho azedinho e intragável, e seu pai ainda queria salvar e comer tudo. Só ele mesmo!!!"


Hehehe, vocês pensaram que eu havia errado no título do post, né?
Mas foi macarronada ao suco, mesmo: suco de tamarindo!
Uma noite bem doce para os visitantes!
Um beijo bem carinhoso de agradecimento ao Mané (que era como o Papai falava)!


Foto: Acervo pessoal

domingo, 1 de agosto de 2010

Tapinha dói, sim!


O Papai não batia nos filhos. Ele tinha medo, dizia. O Fabão era forte demais e quando perdia a calma, era perda total, como nos relatórios das seguradoras. Ele também se lembrava das surras recebidas de seu pai, o vovô Carlos, "um touro", como se falava. O Vovô agarrava os filhos pelos cabelos e descia a mão... O Papai contava de uma vez em que tentou se esconder na "casinha" (sinônimo de banheiro) e não foi rápido o suficiente: O Vovô, com uma só mão, arrebentou a corrente da descarga e deu o "corretivo" de praxe.
A Mamãe, ao contrário do Papai, era adepta da educação das antigas: vara de marmelo, cinto de couro, chinelo, fio de ferro-de-passar-roupa (eles se desconectavam do aparelho e eram revestidos por um tipo de tecido). Depois da surra, vinha o complemento: banho de água com sal para diminuir os vergões!
Eu não bati e não bato na galera aqui de casa. Tenho aversão à violência. Não sei se fiquei com alguma sequela (putz, devolvam o trema!!) psicológica por ter apanhado, mas sei que era horrível demais.
Agora veio uma lei para impedir que as crianças sejam castigadas fisicamente ou por qualquer outra forma cruel e abusiva. E assim começa uma polêmica: a interferência do Estado no privado direito dos pais educarem seus filhos da maneira que bem entendem X A necessidade de castigos físicos para a educação das crianças. Mais ou menos como a equação: 1+1=B.Ou, o que é que o *(piiii) tem a ver com as calças?
De qualquer forma, como muitas outras, no Brasil, nada garante que a lei vai "pegar" - mais uma muda na horta legislativa nacional!
Entendo que educar passa muito além de palmadas e surras. Limites não precisam ser tão, digamos, explicitamente colocados. E a discussão vai muito além.
Só que isso me fez lembrar que, antigamente, alguns castigos fizeram escola. De beliscões fininhos, com as pontas das unhas a outros grossões, com o polegar e o indicador inteiros como protagonistas. Ajoelhar em milho ou feijão. Lavar a boca com sabão, para não falar palavrão. Comer cigarro, para não fumar. Minha avó Geni, fez a Mamãe e o meu tio Carlinhos comerem o resto de um tacho enorme de doce de leite para eles nunca mais brigarem para raspar o tal tacho. Isso tudo, hoje em dia, virou folclore, mas casos pavorosos saídos das páginas policiais nos alertam que a barbárie humana não é ficção ou piada familiar.
Com a lei ou sem ela, carinho, já!

Foto: Tirei daqui: (http://conexoesinevitaveis.blogspot.com/2010/08/educacao-um-tapinha-nao-doi-sobre-lei.html)