domingo, 3 de julho de 2011

À Roda



Um belo dia, quando estava mostrando para o Frederico e a Isabela um filme do Mazzaropi, apareceu uma cena em que algumas crianças brincavam de roda. D.Isabelinha disse:
- Nossa, que brincadeira mais besta!
Na hora eu ri e quase concordei. Parecia mesmo besta, ficar andando em círculos, cantando uma musiquinha meio bobinha, de mãos dadas umas com as outras... Tédio!
Depois, eu encalacrei na minha cabeça o pensamento: Puxa, será que eu era besta, mesmo? Porque eu adorava brincar de roda!
Por muito tempo isso me "rodiava" no pensamento.
Até que, de repente, não mais que de repente, resolvi sair à cata de mim mesma, lá nos tempos remotos em que ser besta era comum e descobrir a explicação, de uma vez por todas, do porquê de tanta besteira.
Descobri um montão de coisas, espia:
Descobri que ser criança não tem explicação, porque ser criança é que ensina as coisas. As explicações, só complicam.
Percebi que estar com amigos é tão bom, mas tão bom, que dispensa qualquer pretexto ou subterfúgio. E se, além de estar com os amigos, a gente ainda pode tocar neles... então é a glória! Imagina sentir a força e a delicadeza das mãos que compartilham nossas aventuras, medos, alegrias, raivas, enfim, nossa vida! Sentir a pulsação, o suor dos corpos num ritmo comum nos torna UM! Insuperáveis! Indestrutíveis! Admiráveis!
Tudo isso, ao som de uma melodia que não precisa muito intelecto. Só a certeza de que tem música a embalar nossa vida. A música que veio antes do nosso ser, a música simples e primordial, dos tempos imemoriais e, por isso, inesgotável.
E ainda tinha ar livre. Tinha presente a ausência do "adulto" (quem precisa vigiar crianças brincando de roda?) supervisor.
Tinha o movimento repetitivo, quase hipnótico na sua regularidade. Puro instinto: continue a rodar - diria a Dory.
E, acima de tudo, tinha a despreocupação. Nada importava. A não ser estar ali. 100% ali. Completamente.
Mais tarde, nós, adultos de todas as idades, vamos procurar insistentemente a mesma sensação. De pertencer completamente a um momento, a um grupo e a um existir. E pagaremos caríssimo por isso. Drogas, empregos, casamentos, comportamentos que propiciem aquele abandono e aquele bem estar. Não tem o melhor rodador, nem o melhor cantor, nem o mais rápido,nem o mais bonito. Melhor é o quanto mais amigos. Melhor é o fazer junto e ao mesmo tempo e na mesma intensidade..
Acho que a Isabela nunca saberá a complexidade de uma brincadeira de roda - a não ser que participe de uma. E, mesmo assim, sendo uma criança de uma era que precisa de bites e bytes pra provocar emoção, talvez não tenha a bestagem suficiente. Crianças que já nascem competindo: o melhor carrinho de passeio, a mamadeira mais tecnológica. O quarto mais cheio de design e a escolinha que mais cedo prepare para o vestibular, símbolo mor da possibilidade de ser um winner!!!!
O último Ipod e a rave mais descolada trazem prazeres diferentes.
A maturidade precoce dos nossos sarados jovens poliglotas os preparam para um tempo diferente, escolhas diferentes, é claro.
Talvez o que a nossa Terra (essa que brinca de roda com os outros planetas do universo) precise, é de gente um pouco mais besta para que, juntos, no ritmo puro da cirandinha, tenhamos um bocado mais de paz e de felicidade.

2 comentários:

  1. É... realmente as crianças de hoje nos superam em muitas coisas, mas ficam superadas pelo simples fato de que, muito exigentes não valorizam o simples, o puro, como nossas brincadeiras inocentes, como um simples rodopiar de mãos dadas. Pra elas, isso não passa de um ato sem razão, talvez até estupido, mas que pra nós que vivenciamos isso soa como uma união agradável de nossas mãozinhas com o coração dos amiguinhos...
    PARABÉNS!!!

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  2. Aí Flavinha mais uma vez nos presenteando com palavras lindas que nos remetem a um passado maravilhoso que só quem viveu sabe dar valor,parabéns,brigadão!

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