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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Glaura




Não posso falar no Papai sem falar de Glaura. Lugar e pessoas amados. Onde ele se sentia aceito. Onde ele ficava à vontade. Aliás, como disse o poeta: "Um estado de espírito", mais que um lugar.
Falar do Raimundo e falar da Geni.




Quem os conheceu nunca, nunca poderá esquecer! A Sabedoria quando encontra a Generosidade = o tal AMOR de que nos fala a Bíblia. Aquele da língua dos anjos. Pois antes do Papai nascer, a Geni já fazia parte da sua vida. Grande mulher que ajudou tanto a vovó América. A amizade que enfrentou momentos ruins. Amizade que compartilhou alegrias e continuou nos filhos e os fez meio irmãos. Acredito que daí vieram muitas lições, aprendidas verdadeiramente de cor - de coração.
Em Glaura, o Papai era o próprio 'pinto no lixo' pois com seus defeitos e qualidades era recebido e que com sua alegria era benvindo.
Quantas histórias!
O tombo da jaboticabeira. As noites viradas no cassino. A gincana e a Branca de Neve. O cuité ardente. As partidas de voleibol. A festa 'julina'.
Os carnavais. A briga que deixou o Boca ferido.
Cantorias sensacionais.
Capeletes deliciosos. O Trupicão do Raimundo nas mesas de truco. As farras homéricas e as ressacas iguais. A sua "blusa de Glaura" cheia de bolsos para guardar as fichas. As mesas enormes de bingo. A falta d'água de tempos remotos. O banheiro debaixo do chão. E de manhãzinha "ir no mato". As pitangas, ai, as pitangas! A chegada com a igreja se materializando subitamente. A cama do Tiziu com a lâmpada de plantão. O antigo quarto da Geni com o forro de palha. O piso de tábuas cantantes. A paineira linda.Sentar no muro da igreja. Sair para as novenas falando bobagem: o herege! Os passeios na bica e O Abominével Homem das Naves. Os doces maravilhosos: de mamão, de abóbora, de cidra... Queijos e chouriços. O fogão à lenha incansável. O quartão sempre cabendo mais.
E os incríveis natais e quando um dia, ele virou Papai Noel.
É pouco?
Tem muito, muito mais!
Foram tantos anos, foram tantas pessoas! O Papai foi com elas e ficou com elas. Num cantinho de Glaura o coração do Pandilim pulsa. Um tum tum de tamborim.

Foto 1: (http://www.glaura.com/crbst_19.html)
Foto 2: Acervo pessoal.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Infância




Papai nasceu em 1931. Essa foto aí é desse ano - Dá para ver até o viaduto de Santa Teresa. Era o nono filho e a fila ainda ia andar! Teve tempo e oportunidade para se esparramar pela cidade, então Jardim, mas que tinha muito era brejo! Ele contava que pegou muita 'maria sapuda' onde hoje são avenidas, como por exemplo, a Prudente de Morais.
Foi uma infância de liberdade e aventuras. Mas foi também época de vacas magérrimas.
Catava metal, ossos e outras coisas para vender e ganhar um troquinho. Dizia que houve um tempo em que passava tanta necessidade que enfaixava um dos pés para ir à escola, para economizar sapato. Na outra semana, enfaixava o outro pé. Ô menino que se machucava!
Eu não tenho muita certeza mas acho que foi a sua prima, Arilda, que trabalhava no Bazar Americano, quem arrematava brinquedos com pequenos defeitos (nossa ponta de estoque) para deixar nos sapatos, no Natal. A Tia Vera falava que quando acordava de manhã e pegava uma cadeirinha de boneca toda torta, achava o Papai Noel um relaxado!
Um dia, andando pelas ruas da Floresta, o Papai viu seu primo, Clóvis, que ia comprar pão, deixar cair uma nota. Ele catou o dinheiro, caladinho, foi até a venda e comprou tudo de doce. Comeu sozinho! Ficou com a consciência pesada, falava - "até hoje!".


Foto: (http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=831846)