sábado, 2 de abril de 2011

Inseparável




Ela me espreita do canto do quarto. Fica com o olho comprido e quando eu menos espero... vupt: Pula no meu cangote e me esgana o pescoço.
Às vezes, fica debaixo da mesa. Como quem não quer nada, passeia por ali e, num instante já me pula no colo.
Algumas ocasiões, fica gritando no meu ouvido. Outras, me sussurra como em um sonho. Anda dentro da minha bolsa, compartilha a escova de dente. Senta perto de mim na poltrona e até frequenta a bancada do computador.
Escandalosamente me recorda as falhas. Não me polpa de sua presença nem nos finais de semana ou feriados. Quando eu acho que tirou umas férias, era fingimento... "olha eu aqui 'traveiz'".
No trabalho, costuma me esperar dentro da gaveta ou até mesmo em cima da mesa, ó que ousadia! Na sala de aula, fica dentro do caderno, igual àquelas flores secas que a gente costumava guardar de recordação.
Sai de dentro do saleiro, na cozinha. Ou da lata de leite condensado. Adora ocasiões especiais e festas. Nessas horas, já achei a danada na espuma do chopp e até mesmo debaixo de um granulado do brigadeiro. Normalmente do oitavo. Ou décimo quinto... sei lá.
Já me perseguiu no shopping. Livraria, então! É infalível.
À noite, quando eu vou beijar os meninos adormecidos, ela fica pairando sobre a cama.
Quando estou atrasada. Quando estou com raiva. Se eu sinto preguiça ou mesmo se estou muito feliz. Ela arranja qualquer pretexto. Só não me deixa.
Me aponta a pobreza. Me mostra o desperdício.
Me sacode no sono, às vezes de madrugada!
Late junto com os cachorros, quando eu chego tarde, à noite.
Mia com o gato, pela manhã, pedindo comida.
Me acusa cheia da terra que ressecou nos vasos das plantas.
Me repara a roupa larga, me chama a atenção para as unhas sem esmalte e a cara lavada.
Fica horrorizada com meu comportamento tão... povão! Rosna para minhas atitudes politicamente incorretas. Joga o dicionário e a gramática na minha cara.
Se intromete no banheiro e na minha conta corrente.
É atrevida, irônica, maldosa e, principalmente, não tem cerimônia alguma.
Eu já tentei penitências, indiferença, terapia. Antidepressivo, torta de chocolate e até jejum. Já implorei, fiz ameaças e até arrisquei um pacto. Mas não tem jeito.
Essa culpa não me larga.

Um comentário:

  1. Linda postagem!!!! Bjo e fique com Deus. Ops, sou eu, sua irma querida.

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