quinta-feira, 4 de março de 2010

A Vovó Meca



A Vovó era uma doce figura. Seus cabelos finíssimos, como um halo na sua pele tão branca e macia! Suas mãos capazes, tão mágicas! Seus trabalhos de crochê, praticamente rendas, delicados, perfeitos! Seu jogo de Resta Um, que me deixava fascinada. Seu cheiro de delícia! Ninguém deve se espantar das tantas exclamações. Só assim para tentar ser justa.
Sua voz cristalina a me dizer: “Que madrinha mixuruca você arranjou.” E ela foi a madrinha mais perfeita. Ou preocupada: “Flávia, pare de fumar, você está estragando a sua pele!” Parei, Vó! Já faz quase sete anos... O que está estragando a minha pele é só essa praga de gravidade...
Ela tinha a inocência (ou a sabedoria) de acreditar sempre na bondade. Na beleza. Na sinceridade. Um dia, na televisão, passava um programa mostrando a tragédia da seca na África: a miséria, a fome, as crianças magérrimas, desenganadas. O Tiziu chama a vovó:
_ Vem ver, Mãe. Rápido!
A Vovó, sem fôlego, sem nem saber direito o que se passava:
_ Que maravilha!!!!
Como poderia ela imaginar que coisas tão horríveis pudessem ter lugar no mundo? Pois sempre, nos momentos mais difíceis, teve fé na bondade do ser humano.
É que, Vó, você sempre inspirou os melhores sentimentos.
Houve uma vez em que os filhos reunidos contavam o caso de um pinguço que fazia de tudo por uma cachaça. Foi quando alguém propôs que, se ele comesse arroz com barata ganharia uma dose caprichada de pinga. O Tiziu, brincando, fez cara de nojo: “Credo, com arroz!” e a Vovó, crédula, xingou: “Você fica com nojo logo do arroz, né?”
Mesmo atarefada, quando seus filhos iam saindo e se despediam:
_ Bença, Mãe.
_ Deus te abençoe.
_ Bença, Mãe!
_ Deus te abençoe, filho.
_ Bença, Mãe...
_ Vá com Deus, meu filho.
...
Um dia, o papai não a escutou respondendo e gritou, na maior grosseria:
_ BENÇA, MÃE!!!!
E ela, dando o troco:
_ Deus te abençoe, RAIO!


Pois é... tenham um ótimo dia! Fiquem com um pouquinho dessa gostosura de Vovó!

Foto: Acervo pessoal.

Um comentário:

  1. Só eu sei o quanto eu amolei essa minha bisavó tão querida, quando eu era criança. Vivia mexendo no seu balaio, em seus crochês, desenrolando seus novelos... Ai que saudade.

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