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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Fé, homossexualidade e leis




Não desprezo Deus.
Desprezo aqueles que se apoderaram dEle e transformaram-nO em um ser vaidoso, cruel e vingativo.
Não desgosto de Deus. Desgosto de quem resolveu colocar palavras de ódio na Sua boca. Aliás, quem resolveu dar-lhE uma boca e ousou limitar a grandiosidade e o indefinível em uma dimensão tão estreita.
Renego a apropriação de um "modelo", diante de uma infinidade de criações e criaturas.
Ele é a liberdade, a imensurável diversidade.
Prenderam-nO em livros, pergaminhos, tábuas e em imagens.
Deram-Lhe uma visão cercada das traves dos olhos, imperfeitos e parciais, dos humanos que arrogaram-se em representantes de profetas. Porque os iluminados que aqueles/estes declararam representar, não escreveram uma palavra. Não me consta que Jesus, Buda ou Maomé fossem analfabetos e não tivessem capacidade para registrar seus pensamentos e ensinamentos. Ao quererem que seguissem seus exemplos, talvez o primeiro exemplo fosse não escrever ou deixar escritos, exatamente porque não lhes interessava impor leis nem se apropriar de poder.
Realmente, nem penso que os livros são um erro. O erro é querer impor interpretações pessoais desses escritos como regras ditadas por Deus.
Do átomo às galáxias, Deus está além da compreensão. Querer impor-Lhe limites e definições é o ato máximo de soberba e mesquinhez.  
Como foram e são mesquinhos os que julgaram, e julgam, poder traduzir as intenções da Perfeição. Que ousadia e que atrevimento querer conhecer o âmago do Imponderável!
Lancem fora suas mãos, olhos e línguas antes de quererem se apoderar do Infinito. Não conspurquem a Natureza com sua pequenez. E não queiram contaminar o amor com sua visão pobre e falha de empatia.
Não venham dizer que a fé justifica o autoritarismo e a arrogância. Porque a fé que tanto declaram não é fé em Deus. Mas fé em humanos que lhes disseram em que acreditar.
Humanos presunçosos, cheios de cobiça e sedentos de poder.
Não desdenho da fé. Desdenho da imposição do modelo de fé.
Respeito a credulidade. Até dos que creem que não têm fé.
Espero e exijo que respeitem a minha. Ela está aí, acima, mas é muito mais que isso.
Existir é um ato de fé. O vírus é um ato do poder existir e não há vírus errado. Os vírus não podem ser amaldiçoados. São a tradução de um poder operando em sua imanência. Seres humanos existem e suas individualidades não podem ser amaldiçoadas ou negadas. Aliás, o que é maldição? Mal dizer. Disseram que Deus era o verbo. O Verbo cria e a criação do Perfeito é uma bênção. O verbo perfeito é: existir. Que é, porque é. E só se cumpre se for.
Então, deixem em paz criaturas que têm em comum algumas condições, necessidades, características e comportamentos. Claro que há modos diferentes de vivenciar cada uma delas mas, o que me interessa abordar, agora, é mais ou menos isso:   
Heterossexuais:        
Nascem, respiram, crescem, estudam, riem, cansam, sofrem, sangram, esperam, conquistam, choram, fracassam, comem, viajam, perdoam, julgam, envelhecem, transam com parceiros de outro sexo, praticam esportes, comunicam, dormem, acreditam, desanimam, escolhem, morrem. 
Homossexuais:
Nascem, respiram, crescem, estudam, riem, cansam, sofrem, sangram, esperam, conquistam, choram, fracassam, comem, viajam, perdoam, julgam, envelhecem, transam com parceiros do mesmo sexo, praticam esportes, comunicam, dormem, acreditam, desanimam, escolhem, morrem. 
Mesmo com tantos aspectos que definem e formam a individualidade das pessoas, há quem insista em desqualificar e discriminar outras pessoas, baseados exclusivamente em sua maneira de exercer sua sexualidade, ou seja, "com quem fazem sexo". É dar importância demais ao sexo, não?  Aí, me pergunto: quem é que obcecado por sexo, mesmo? Quem consegue supervalorizar um comportamento e uma das necessidades básicas dos seres (no caso, humanos), ignorando todo o resto, a ponto de tentar impedir direitos e mesmo ameaçar vidas? Quem quer amaldiçoar a criação do próprio Deus que adoram, apontar o dedo e definir: pervertidos? Se acreditam que homossexualidade é pecado, não pequem. Não venham tentar impor suas crenças a outrem. Principalmente, não queiram se apoderar da prerrogativa do Deus, no   qual acreditam, vestir Sua toga e julgar, antecipadamente, o "irmão". Deveriam crer que seu Deus é capaz o bastante para esperar o Juízo Final para fazer isso sem qualquer interferência e antecipando a decisão divina.
Fiquem fora da fé, das leis e da cama alheias.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Que haja paz





            Enquanto fazia um bolo, cada xícara de açúcar me amargava a lembrança das crianças palestinas aterrorizadas e massacradas pelo governo israelense. Cada pitada de fermento me diminuía a fé por causa das dores das mães na Palestina arrasada. 
            E o bolo ficou bom. Incompreensivelmente, pois meus sentimentos eram muito, muito tristes.
            Eu pedia, em pensamento, que aquilo tudo terminasse.
            Uma caneca de café quentinho poderia reconfortar meu peito angustiado, mas o que traria paz àquele canto do mundo onde o terror resolveu armar o seu acampamento?
            Eu, que já chorei tantas vezes, ao longo da minha vida, ao ler sobre um povo que era, então, o perseguido, comecei a entender o porquê das vendettas infinitas.
            Mas é insano continuar nesse caminho que só reforça a violência e justifica a dor.
            Então, resolvi dirigir meu filme e imaginei o povo israelense (mostrando ao seu governo genocida que não é cúmplice da tragédia), se dirigindo ao território atacado e protegendo o povo palestino (demonstrando ao seus líderes terroristas que não é cúmplice da violência), se abraçando e apresentando ao mundo atônito e aos aliados de parte a parte na ganância e na indiferença, que o bem não é matéria de governos: é vontade dos povos.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Minha Mãe


Ela era minha mãe.
Entre tantos bilhões de seres humanos, calhou ser ela a me parir. E me cuidar. Acompanhar meu crescimento, minhas fases, derrotas, perplexidades.
Concentrou em si tudo que alguém é e pode ser: a heroína, a lutadora, a que tenta, a que busca, a que deseja e a que se cansa.
Me deixou assim, com uma enorme interrogação do que poderia ter sido e o que poderia estar sendo.
Ela se despiu do orgulho de tentar ser perfeita. Foi aquela que intercalava dons com maldições.
Mamãe me conheceu mais que qualquer outra pessoa e, ainda assim, me aceitou.
Eu consegui compreendê-la, admirá-la, amá-la, mas foi tão curto o tempo da trégua!
Ela conseguiu dar o passo que significou sua liberdade e uma vida mais feliz?
Ou ela se deixou tomar pelo medo ou culpa ou resignação? Não faz mais diferença, agora.
Ela foi uma mulher admirável que procedeu lamentavelmente, por vezes. Mas não é assim com todos nós?
Sei que sinto a sua falta. Penso, muito frequentemente, que ela poderia estar dividindo a sua mão mágica para as plantas, no meu jardim.
Imagino ela me fazendo um cafuné, começando mais um projeto e fazendo pão, macarrão ou pastel.
Mas não consigo me lembrar da sua risada (olha que triste)!
Quanto dela carrego comigo, além das lembranças?
Domingo, faz quinze anos que ela se encantou e seguiu por caminhos indecifráveis.
E faz quinze anos que eu perdi um pedaço de mim.